Quer vir aqui em casa?
Não foi bem assim.
Quer vir lavar louça comigo?
Recebi esse convite e adorei.
Quanta intimidade cabe num convite desses? Lavar louça na casa de alguém que você nunca encontrou pessoalmente? Não sei explicar direito, mas me senti abraçada.
Estávamos num encontro online e uma das pessoas começou a lavar louça enquanto continuava participando da conversa.
Eu fui tomada por aquela cena de fundo e parecia que eu estava lá… sentada no chão da cozinha. Ladrilho preto e branco, parede amarela.
Ela de blusão de casa, daqueles que a gente não desapega nunca. Um blusão íntimo da pele, da rotina, da vida.
Enquanto lavava a louça, lavava a alma. Enquanto lavava a alma, lavava a louça.
Nesse encontro falamos sobre tantas coisas legais… simples, cotidianas e, por isso mesmo, profundas, criativas, inventivas, alegres e tristes. Coisas que parecem pequenas até a gente olhar de perto.
Eita encontro que mexe!
Mexe, lava, escoa.
Faz represa e cachoeira.
Ao final do encontro resolvi falar daquela cena.
Não sabia se tinha a ver com o tema. Mas aprendi ali que, de algum modo, sempre tem.
A Kris, nossa anfitriã, costuma perguntar:
Tem algo vivo aí?
Naquele dia tinha.
Eu estava viva dentro da cozinha amarela.
Eu conseguia ver o chão preto e branco. Eu estava sentada lá. Eu estava! Conseguia ver a Nic de blusão, ocupada numa tarefa comum, enquanto compartilhava conosco pensamentos tão íntimos quanto a sua cozinha.
Não sei se era a água correndo, o barulho das coisas batendo na pia, aquela roupa de casa, a parede amarela ou simplesmente a vida acontecendo. Uma intimidade que não precisava preparar a cena.
Não sei, mas talvez tenha sido tudo isso junto que me pegou.
Quer vir lavar louça comigo?
Eu quero, Nic.
Não precisa arrumar nada. Me espera.
A pia pode estar cheia.
A vida também.
Você senta no chão, que eu lavo a louça pra você!
— Marilia Pelluzzo | filhadasmães
Palavra por palavra, sigo me reescrevendo!


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