Era uma tarde chuvosa numa mercearia localizada na pequena Ilha de flores. Era escura, com uma mesa de sinuca, sempre rodeada por homens jogando e bebendo. O dono era um senhor calvo, sisudo e avarento, com uma perna mecânica esquisita. Todos tinham medo dele e da sua bengala de madeira marrom.
Seu Zé ficava no caixa, olhando por cima dos seus óculos de águia, com a bengala bem à vista de todos.
Uma menina de sete anos e sua mãe sempre visitavam Seu Zé. Quando chegavam lá, sua mãe dizia:
— Vai no caixa dar um beijo no seu pai.
A menina entrava em transe nesse ritual de horrores. Enchia o peito de medo e seguia feito um zumbi. Já sabia o que ia acontecer. Toda vez que encostava no Seu Zé, levava um choque terrível.
O caixa do Seu Zé parecia uma masmorra. Sujo, apertado, desconfortável.
Toda vez que a menina chegava ao caixa, Seu Zé pedia que ela fizesse favor qualquer, que falasse com todo mundo, num mundo que ela não conhecia. Muito tímida, ela sempre tentava escapar. Queria correr pra Maria.
Mas Seu Zé aterrorizava sua cabeça:
— Você é muito preguiçosa, muito emburrada. Não fala com ninguém.
Nessa tarde chuvosa, enquanto Seu Zé estava atento ao troco, a menina entrou na sua solitária levando uma prova na qual tinha tirado nota dez. Seguindo como um robô o ritual de horrores, deu um beijo no monstro do caixa e mostrou seu grande feito. Olhando a nota dez, Seu Zé disse:
— Não fez mais que sua obrigação. Você não faz nada.
Ela esperou se recuperar do soco no estômago. Fez uma varredura naquela pocilga e reparou que a única delicadeza no meio de tudo aquilo era a fotografia da moça bonita. Antes que ele berrasse outra vez, perguntou:
— Pai, por que não tem uma foto minha aqui? Só dela?
— Porque você não é minha filha. Ela é. E vai lá pro balcão ficar com a Maria, já que não sabe fazer nada.
Ficar com a Maria eu gostava. Ela sempre mandava eu sentar num banquinho perto dela. Ali, encolhida, eu me sentia protegida. Ela sempre falava:
— Já, já te dou um suspiro.
Ela sempre me dava o azul.
— Deixa o movimento do pão passar…
Dessa vez, não deu tempo da Maria me salvar.
Seu Zé voltou a atenção para o troco e nem percebeu que a menina sumiu de repente.
Você não é minha filha…Você não é minha filha…Você não é minha filha.
O chão abriu sob os pés da menina. Ela caiu junto com seus monstros.
Não teve nenhum suspiro colorido. Apenas vozes sem cor, que agora vinham de dentro:
Você não é minha filha.
A menina ficou perdida por muito tempo. Perdeu as contas e a referência de tempo e de lugar.
Onde, então, seria seu lugar de filha?
Seu Zé era um homem solitário, bronco e protetor da moça bonita. Deu um choque de realidade na menina.
Hoje, olhando para trás, a menina agradece ao monstro que, naquele dia, a deserdou, tornando-a filha das mulheres mais guerreiras e corajosas que ela conhecia.
Palavras da menina:
— Espero ser uma guerreira. Quero acreditar que herdei a força dessas mulheres incríveis. Vou precisar, porque quero acordar desse pesadelo. Preciso ir pra superfície. Preciso respirar…
Lembra do suspiro azul que a Maria me dava?
Agora vou dar meu próprio suspiro. Um que eu mesma vou colorir.
Palavra por palavra, sigo me reescrevendo.
— Marilia Pelluzzo | filhadasmães


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